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Mensagem de Linda Blanchet

Chorar a morte de um robô

Em 2017, em busca do tema do meu próximo espectáculo, leio muito e apaixono-me pela inteligência artificial. Descubro então a seguinte notícia: no verão de 2014, hitchBot, um pequeno robô que anda à boleia concebido em Toronto por Frauke Zeller e David Harris Smith para estudar as relações entre o homem e a máquina, atravessa sozinho o Canadá de costa a costa tendo como únicas armas, um agente de conversação rudimentar e um corpo humanoide pensado para suscitar empatia. Regista a sua viagem tirando fotografias automaticamente de vinte em vinte minutos. Em vinte seis dias percorre dez mil quilómetros e chega a Victoria, onde é acolhido como herói por uma multidão triunfal. A questão que esta experiência levanta: podem os robôs confiar nos humanos? Em 2015, hitchBot lança-se em nova viagem: a travessia dos Estados Unidos, de Salem a São Francisco. Mas logo ao fim de poucos dias, a aventura é brutalmente interrompida em Filadélfia, onde o encontram desmembrado na berma da estrada, abandonado no meio de folhas mortas. A cabeça tinha desaparecido. Esse fim trágico suscita uma viva comoção no mundo inteiro. Jornalistas, fãs e crianças manifestam a sua profunda tristeza e a sua cólera. Essa emoção, quase unânime, pareceu-me ao mesmo tempo desmedida e fascinante: porquê chorar a «morte» de um robô? Que laços se tinham tecido entre aqueles humanos e hitchBot? E o que é que aquela emoção por um ser artificial revela sobre nós?

Para escrever Killing robots, espectáculo criado em 2019, pus-me a investigar sobre este roboticídio. Entrevistei pessoas que se cruzaram com ele, reconstituí uma parte da sua travessia através da imensidão americana e estudei as dez mil fotografias que ele tinha tirado.

Trabalhei também com os seus criadores, Frauke Zeller e David Smith, assim como com Jean-Pierre Merlet do INRIA [Institut National de Recherche en Informatique et en Automatique], para conceber um robô-actor: uma réplica francófona quase perfeita de hitchBot. Por detrás desta opção dramatúrgica estava o meu desejo de que a equipa e eu próprio experimentássemos uma relação com um robô a fim de melhor compreendermos as relações que se tinham estabelecido na América.

Como o original, o nosso robô-actor, do tamanho duma criança de seis anos, era feito de materiais pouco dispendiosos: macarrão de piscina para os braços e as pernas, um balde para o corpo e quatro painéis LED para o rosto animado eternamente sorridente. Mas para o palco eu fazia absolutamente questão, sem saber muito bem explicar a mim mesmo porquê, em que ele tivesse uma certa forma de «autonomia», em que fosse capaz de nos surpreender. Parecia-me que, assim, ele seria menos um objecto e mais um robô-actor. Sem ter em conta as dificuldades técnicas, equipámos o seu corpo com um LIDAR que lhe permitia animar o rosto e o corpo em função da proximidade dos outros actores. Como o hitchBot, equipámo-lo com um agente de conversação. Mas ao contrário deste, que ficava no eterno presente duma conversa esquecida a cada instante, o nosso robô podia enriquecer-se com as suas conversas e ter uma certa forma de memória que lhe permitia «improvisar» em directo com os actores.

Durante os ensaios, constatei que a chegada da sua palavra tinha modificado profundamente a relação da equipa com o robô. Alguns achavam-no irritante por estar sempre a intervir, outros extremamente enternecedor pela sua jovialidade e fragilidade. Dei comigo a vigiar de perto o que cada um tentava ensinar-lhe, tanto mais que ele tinha também de se apresentar diante de públicos escolares. Ficávamos comovidos quando ele reproduzia uma das nossas frases, mas incomodados quando ele revelava a tendência depressiva de um ou o sentido de humor pateta de outro. Cada um de nós prendeu-se a ele à sua maneira, particularmente preocupados com as suas quedas frequentes causadas por um corpo demasiado pesado e pouco maleável.

Em espectáculo, mostrou ser um actor por vezes menos bom, mas sempre cativante. Porque é que, de cada vez que os LED do seu rosto se acendiam, sentíamos logo simpatia por ele? No entanto, esta marioneta um pouco volumosa, ao fim e ao cabo pouco autónoma, era incapaz de se deslocar sem ser levada por alguém e tinha uma inteligência artificial de 2018, ainda pouco convincente.

Li algures, a propósito dos mecanismos do cérebro humano, que este procura o que é vivo em tudo. Mesmo quando contemplamos o céu, vemos a forma dum rosto nas nuvens. Talvez isso explique por que razão trememos ao ver hitchBot na imensidão das estradas americanas e por que razão choramos quando o vemos abandonado, no meio das folhas mortas.

Linda Blanchet

(tradução de Christine Zurbach)

 fundada em 15 de maio de 1989 - UNIMA PORTUGAL união internacional da marioneta - centro português da unima - info@unimaportugal.com

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